Game feel: a riqueza dos detalhes

É bem provável que você já tenha se deparado com um jogo que, apesar de possuir bastante conteúdo e parecer bastante divertido, à medida que se joga, começa a se tornar monótono e não conquista sua atenção como esperado. As armas parecem não ter peso, os controles não são precisos e os sons de pular, andar e coletar são sempre iguais e sem graça. Em suma, o jogo não comunica de forma eficiente os eventos retratados no jogo ao jogador.

O  principal motivo pode ser a falta ou má execução de Game Feel!

Video games são um meio que difere, fundamentalmente, de meios mais tradicionais, como livros e filmes, em um importante aspecto: são interativos! E por serem assim, requerem um nível a mais de cuidado e criatividade em sua concepção para proporcionarem uma experiência imersiva e cativante.

It’s all about feedback! – Maximizar o feedback com o mínimo de input.

Prestando atenção em um jogo como Super Mario 64, pode-se perceber a imensa atenção aos detalhes. A cada comando para movimentar o encanador italiano mais famoso do mundo, o jogo faz questão de validar as ações do jogador com diversas formas de feedback. Se você movimentar Mario para a esquerda ou direita, seu corpo se inclina um pouco na direção que ele está indo. A cada pulo, escorregão ou wall jump, o Mario reage com sons, animações e/ou efeitos de partícula.

À medida que os controles do jogo são dominados, é possível “sentir” o personagem e as forças físicas aplicadas a ele, como aceleração, inércia, fricção e momento. O mesmo pode ser dito do Super Mario original.

Outro jogo que é muito bem conhecido por seus excelentes controles é Super Meat Boy. Fenômeno indie, Super Meat Boy requer movimentos muito precisos para se conseguir chegar ao final de cada fase e para tal, os desenvolvedores fizeram um brilhante trabalho de deixar o input sem nenhum tipo de atraso, o que resulta em controles precisos e previsíveis, fazendo com que quando o jogador erre algum movimento, por exemplo, culpe a si mesmo e não o jogo.

Além do input, outra forma de adicionar personalidade a um jogo é com efeitos visuais. Parece óbvio. É o que geralmente mais chama atenção, mas nem sempre é executado com maestria.

Como via de regra, quanto mais o jogo reage às ações do jogador melhor, podem-se criar diversas combinações de efeitos e rotinas gráficas para tornar um jogo juicy.

Entre as mais comuns estão:

Tweening(ou inbetweening, easing) pode ser útil para movimentar elementos no jogo de forma suave a partir do valor inicial até um final de acordo com a função escolhida para efetuar a interpolação.

Algumas funções para tweening/easing(http://easings.net/)

Screenshake(ou “tremer a tela”) é utilizado, principalmente, quando se quer transmitir para o jogador a ideia de que ocorreu uma explosão, tiros, objetos pesados caindo ou se movimentando. Essencialmente, transmite a ideia de credibilidade ao mundo virtual sendo representado. Pode ser utilizado também para indicar, por exemplo, algum erro do jogador tremendo a tela horizontalmente imitando o movimento que os humanos fazem com a cabeça para inferir negação.

Efeitos de partículas, sprites, texturas. Imagine pegar um jogo como Super Mario, ou até Half-Life e retirar todas as imagens (Sprites, texturas), efeitos de partículas e transformá-los em formas geométricas primitivas como cubos e quadrados monocromáticos. As mecânicas dos jogos continuam todas presentes. Apesar disso, agora se perdem diversos elementos que dão personalidade e feel ao jogo e você irá largar o controle em pouco tempo. 

Efeitos de particula adicionam principalmente credibilidade para interações entre objetos, como poeira emitida por um personagem caminhando sobre areia ou explosões.

Animações diferem dos efeitos visuais já citados no sentido que “estão sempre presentes” nos personagens ou objetos, mas são similares no fato de, principalmente, dar credibilidade às interações que ocorrem no mundo virtual.

Um exemplo clássico é o efeito de “esmagar e esticar” objetos do jogo quando pulam, caem e colidem com outros objetos.

Uma boa animação é essencial para fazer uma arma/personagem memorável. Um método simples e curioso para “dar vida” a um personagem é adicionar olhos, mesmo que sua versão no mundo real não tenha. Por exemplo, se seu personagem é uma pedra redonda que gira, pode-se adicionar olhos que se movem para descrever que ela ficou “tonta” após rolar no jogo.

Exemplo de tweening, screenshake, animações e efeitos de particula no Vögel.

E por último mas não menos importante, efeitos sonoros.

Muitas vezes negligenciados, os efeitos sonoros podem mudar completamente o feel de um game.

Se, por exemplo, há uma arma no jogo que lança um raio/projétil de alta energia, você vai querer fazer com que o som do disparo seja alto e grave. E se estiver em um ambiente fechado, utilizar alguma forma de eco para dar a impressão de que algo poderoso foi disparado.

Para deixar os sons de um jogo mais interessantes, pode-se adotar algumas técnicas, tais como alterar suas características ou propriedades,  volume, tom, altura. Você sem duvida já deve ter jogado um jogo em que o som dos passos do personagem, enquanto anda, são sempre iguais e repetitivos. Uma simples alteração que pode melhorar muito a percepção do efeito de áudio é adicionar variações randômicas nas características do som, assim os passos praticamente nunca soarão os mesmos e você só precisou utilizar um clipe de áudio.

Aqui foram citados alguns aspectos e técnicas mais comuns que caracterizam jogos de acordo com seu feeling. São apenas observações e métodos que se provaram determinantes para o sucesso de alguns jogos. Apesar disso, não há garantia que um jogo será um sucesso apenas por ter bastante screenshake ou áudio procedural, mas certamente não fará mal!

Referências:

Juice it or lose it [Youtube]
Game Feel: Why Your Death Animation Sucks (GDC 2015) [Youtube]
Game Maker’s Toolkit – Secrets of Game Feel and Juice [Youtube]
Game Feel: The Secret Ingredient [Gamasutra]
Game Feel Designers Sensation (Livro) [Amazon]